domingo, 11 de outubro de 2015

A Pescadora


Rosane Porto

Assim que a lua cheia surgia redonda, lá no céu,
Mais parecendo um biscoito coberto de açúcar
Ela iniciava os preparativos para a pescaria.
Na mochila, somente o essencial:
A vara de pescar, um baldinho para guardar os pescados
 E um pacote de suspiros...
Logo, embarcava em seu balão
E o vento o levava rapidamente até o encontro das iscas...
Com as próprias mãozinhas a menina pegava as estrelas!
Depois, bastava estacionar o balão,
Colocar a estrela no anzol
 E se acomodar, confortavelmente, na nuvem mais fofa.
E a espera não demorava muito...
Em meio a um breve cochilo
Ela sentia um puxãozinho delicado na linha...
Quando olhava, já não o via,
Mas o pescado estava lá!
E assim, um após outro... muitos!
Cheio o balde, fim de pescaria!
Em casa, guardava todos os chinelinhos que pescava numa gaveta
Porque sabia que as coisas especiais requerem cuidado.
E nunca contou a ninguém o segredo
Que somente ela guardava em seu coração de menina:


O verdadeiro motivo pelo qual os anjos andam sempre descalços...

Para a Denise! Feito sob medida, exclusivamente, no seu aniversário...

sábado, 10 de outubro de 2015

Troca-troca

Rosane Porto

PROCURO CAIXA!

Preciso de caixa para guardar tesouros achados e sonhos em germinação!
Aceito caixa! Não importa o formato: triangular, quadrada, circular...
A condição é que seja infinita: que ninguém saiba onde começa e nem onde termina...
Deve ter capacidade suficiente para guardar todas as memórias queridas e também compartimento reserva para que brotem e floresçam os sonhos recém-plantados e aqueles que nem se sonha ainda, mas que nascerão!
É necessário que a caixa seja ampla, mas leve como uma pluma para que possa ser carregada, dia e noite, para onde quer que se vá!
No primeiro compartimento quero guardar formas inesquecíveis: a tábua retangular do meu balanço, a roda da minha primeira bicicleta, o olho azul da minha boneca, o tapete comprido sobre o qual dei meus primeiros passos e, se couber, a casa inteira onde cresci.
No segundo compartimento quero guardar os litros de cheiros preferidos! Bastará abrir a garrafa e reviver os momentos que o aroma me trará de novo: o colo da mãe, o café com leite, a brisa de amanhecer.
O terceiro compartimento é para as brincadeiras movidas a vento: corda batendo; pipa voando; barcos de papel cortando lagos de chuva no quintal...
E necessita a caixa de compartimento extra, para barulhos encantadores: de mar, de chuva, de trovão, de vento, de passos esperados se aproximando...
Por fim, preciso de espaço, na caixa, para guardar o futuro: um céu estrelado, um catavento e, talvez, uma bússola.
Quem tiver uma caixa, com estas características, tratar:
Campo do Alecrim dourado; Rua das cirandas; casa engraçada que fica no topo da colina.

TROCO a caixa por um anel de vidro que nunca se quebrará!

Para Thais, com carinho! Pois nossa amizade é tesouro especial a ser guardado.

Previsão do tempo

Rosane Porto
Fique atento à previsão do tempo para os próximos dias e saiba a melhor forma de aproveitar aquele que você estiver vivendo:

Domingo

O dia amanhecerá com luz brilhante e intenso cheiro do orvalho que, na noite anterior terá envolvido, cuidadosamente, toda a Terra. O domingo será de sol, praticamente sem nuvens e brisa leve e as pessoas serão despertadas pelo canto dos pássaros que povoarão todas as árvores do planeta. Dia ideal para passeios nos parques e até nas ruas, onde todos se surpreenderão com as janelas e as portas das casas abertas, sem grades e com girassóis brotando pelas calçadas. E, no fim da tarde, haverá grande movimento humano à beira mar com uma intenção simples: contemplar o pôr do sol e ouvir o barulho das ondas abraçando a areia.

Segunda-feira

O sol predominará e a temperatura será amena. Todos perceberão que as distâncias encurtaram durante a noite: bastará uma bicicleta para chegar ao trabalho. Mães carregarão seus filhos com segurança até as escolas que, a partir deste dia, serão reverenciadas como templos sagrados que guardam o mapa que pode levar à descoberta do maior tesouro da humanidade: o saber sobre si mesmo e sobre sua condição humana vivente aqui!

Terça-feira

Dia nublado. A umidade relativa do ar terá índice bem elevado. Haverá frescor pela manhã e, ao meio-dia, todos os pratos terão alimento, pois este já não custará dinheiro, apenas o trabalho do homem em cultivar qualquer partezinha da terra generosa, fértil e limpa. E no meio da tarde, a chuva virá banhar o solo e as crianças sairão às ruas livremente para brincar de pés descalços. À noite, as nuvens carregadas se afastarão e darão lugar ao céu estrelado. A lua será cheia! Os gatos se sentarão nos telhados e o seu miado será o único estampido que se ouvirá no mundo! Toda a gente achará graça dos miadores noturnos e lhes tratará com ternura. As armas terão cessado... agora, as pessoas andarão de mãos dadas e não existirá qualquer barreira entre elas.  

Quarta-feira

Uma massa de ar quente se aproxima do litoral. Dia ótimo para ir à praia: mar calmo e azul e dentro dele todas as espécies marinhas existirão abundantemente! O que era quase extinto será revigorado e viverá sem ameaça! Desde a grande baleia ao pequeno caranguejo. O homem terá reaprendido a tirar da natureza apenas a porção mínima necessária para o seu alimento.

Quinta-feira

Mais um dia de calor agradável em todas as partes do planeta: as florestas aproveitarão o clima para crescerem em paz e amadurecerão frutos de infinitas espécies. E as árvores, os rios serão moradas de animais das mais diversas belezas. Nos campos, as lavouras crescerão verdejantes e nas cidades, as pessoas se sentarão à sombra. As macieiras darão frutos: bastará estender a mão e saboreá-los e também as bergamoteiras, laranjeiras, videiras... e pelas ruas as figueiras estenderão seus galhos e neles as crianças brincarão e os balanços as encherão de vida a cada fim dourado de tarde... ao longe, os risos serão ouvidos.

Sexta-feira

As temperaturas baixarão um pouco na sexta-feira, devido à aproximação de uma frente fria, mas o clima continuará agradável. No calor, haverá sombra abundante e, se por acaso, fizesse frio – ou quando fizer - haverá uma casa simples e aconchegante e também cobertores quentes para todo o humano habitante da Terra. Todos chegarão ao consenso de que não necessitarão de casas suntuosas ou automóveis de luxo para serem felizes: bastará estar com quem se ama!
Já a noite de sexta-feira trará chuvas fortes que encherão os mares, os rios e os reservatórios de água limpa para que este líquido sagrado nunca falte a nenhum ser vivente sobre a terra. Estas chuvas podem vir acompanhas de trovoadas e relâmpagos que iluminarão o céu e isto servirá para mostrar ao homem a força e a grandeza da natureza a quem ele deve respeitar; ventos moderados soprarão do norte para mover as folhas caídas na direção certa.

Sábado

O sábado será de sol e poucas nuvens. O vento soprará do quadrante leste leve, mas intenso e refrescante! As chances de chuva são mínimas e, se ocorrerem, isto será no fim do dia.
Sábado perfeito para viver intensamente a alegria do vento! Antes do almoço, os trabalhadores se reunirão para conversar e tomar suco de laranja e estarão satisfeitos com seus direitos e deveres: desde o jardineiro que cuida dos girassóis que enfeitam as avenidas, o professor que ensina, o médico que traz vidas novas ao mundo: todos, verdadeiramente, considerados iguais perante a lei por serem as suas profissões exercidas para o bem-estar humano e do planeta.
À tarde, quando ainda predominarão ventos leves, mas intensos trazendo o aroma dos jasmins plantados a se perder de vista pelos campos, todos sairão às ruas: para os mais velhos serão levadas cadeiras de balanço e eles ficarão à sombra junto com as crianças e construirão cataventos velozes de experiência; talvez os mais novos queiram soltar pipas e poderá se ver, de longe, o céu todo colorido e, antes de voltar para casa, todo o povo soltará bolhinhas de sabão: serão milhões delas! Tantas que contornarão a Terra como se brincassem de Ciranda...
À noite, haverá sossego e todos poderão repousar sua cabeça e dormir tranquilamente porque algo haverá mudado... algo simples e decisivo: o coração humano. E, neste dia, o homem terá compreendido quem é e, na sua pequenez grandiosa terá aprendido a amar, de fato, a Terra e toda a vida que dela nasce. E então, descansará o homem.

Dicionário das Grandes Felicidades


Rosane Porto
A a
Abraço apertado.
Amar como um estado permanente de viver.
Amigo sempre por perto.

B b
Balanço embalando criança.
Barulho de chuva no telhado.
Brigadeiro após o meio-dia e à meia-noite.

C c
Café com boa conversa.
Casas com portas e janelas abertas num país onde grades são artefatos apenas de um pesadelo casual.
Cheiro de orvalho em amanhecer de verão.
D d
Dançar.
Deus, infinitamente.
Dia ensolarado.

E e
Espelho colocando o homem frente a frente com ele mesmo.
Estradas cujo destino é mistério.
Estrelas cobrindo o céu.

F f
Família vivendo em harmonia.
Flores que nascem onde não seria aparentemente possível.
Floresta... especialmente aquela onde o humano não tocou.

G g
Gatos pretos, brancos ou multicoloridos...
Girar de cataventos.
Golfinhos brincando na água.

H h
Hipopótamo cuidando do filhotinho.
História de Fadas.
Humano de amor-múndi.

I i
Ilhas – do mundo todo – livres de qualquer poluição.
Índio proprietário absoluto, legítimo e merecedor das terras onde pisamos.
Ioiô em mãos de menino.


J j
Janelas abertas com cortinas esvoaçantes recebendo a primavera.
Jantar à luz de sentimentos verdadeiros.
José... para mim, sinônimo de saudades tão imensas, tão imensas...

L l
Livro aberto: fonte das maiores revoluções humanas – as que começam no interior da própria pessoa!
Lua cheia.
Luz! De sol, de estrela, de luar, de vela, de abajur, de olhar, de sorriso... Luz!!!!

M m
Mães... de todos os povos e espécies!
Mar... sereno, agitado, cinzento, azulado... de qualquer forma me ensina a lição da persistência.
Mesa posta para o café da manhã.


N n
Navio cortando os mares.
Nunca trair nossos sonhos.
Nuvens com formas incríveis moldadas pelo vento.

O o
Olhar sereno e firme diante da vida.
Onda batendo na praia.
Outono de céu plenamente azul.

P p
Peixinho nadando no mar e mar repleto de peixinhos.
Pintura feita por dedo de criança.
Poeta... ser especial porque experimenta a sensação de imortalidade.




Q q
Quati alimentando o filhotinho.
Querer bem...
Quilos: medidas de capacidade de alegria... quanto mais peso tivesse, mais leve a vida seria.

R r
Relva verdejante cobrindo todos os caminhos.
Rios de águas límpidas.
Ruas ladrilhadas com pedrinhas de brilhante e margaridas florescendo junto às calçadas.

S s
Sabedoria... fosse dom natural de todos os humanos nascidos sob as estrelas.
Saudade... coisa indefinida e infinita...
Sol... nascendo ou se pondo...  Belo! Extremamente belo para os meus olhos!

T t
Tarde chuvosa: testemunhar o mundo pela janela; cama quentinha.
Tarde ensolarada: passeio no cais, garças pescadoras trabalhando.
Tarde para ser feliz: ambas.

U u
Urso Coala – nunca mais sua pele sendo usada como casaco! Nunca mais sua casa sendo queimada! Nunca mais seu alimento sendo negado! Nunca mais humanos sem humanidade!
Urso Panda - futuras gerações tendo o mesmo direito que eu tive: conhecê-lo!
Urso Polar - com seu território coberto pelo manto branco natural e inviolável como um santuário...

V v
Vento! Vento! Folhas dançando, Senhor Vento, mova tudo do lugar!
Vida! Direito supremo de todo o ser que nasce no Universo.
Vinho... companhia para os melhores amigos; para os melhores amores.

X x
Xícara de chá de morango antes de dormir.

Z z

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!!!!!!!

O sono inocente e justo de um gato!



 
 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Meus Amigos





Rosane Porto

Há alguns anos, criei um conceito: “amigos-poesia”. Eu o utilizei para, de forma direta, homenagear a pessoa que me convenceu que valia à pena escrever para outras pessoas lerem. Ela me convenceu de que eu tinha algum jeito com as palavras. E eu continuava a pensar que a poesia estava nela e que ela via em mim, refletido, o conteúdo do qual estava cheio seu olhar e seu coração...
Bem, o tempo passou e eu fui colecionando outros amigos... ah, me deixem explicar... É estranho usar o termo “colecionar” para nos referir a pessoas, não é? Sim, você está pensando que estou “coisificando” gente... mas não. Digo isto me lembrando de Walter Benjamin (Filósofo, filho de família judaica naturalizada alemã). Benjamin, referindo-se à criança, dizia que ela é uma colecionadora, ou seja, a criança vai pegando do mundo objetos simbólicos e vai montando com eles o seu eu, a sua ideia de humano e do próprio mundo... como um artista vai pintando uma tela... eu diria deste jeito. Somos colecionadores, na verdade, não apenas a criança o é. Por isso, digo que fui, que venho, que estou colecionando amigos. E o que aconteceu foi o seguinte: os amigos-poesia continuam nascendo em meu caminho. Quem os terá semeado pela beira da minha estrada? Vou contar um segredo, a quem interessar: Amigos-poesia são diferentes dos comuns, diferentes destes que a maioria das pessoas têm aos montes... Eles são raros: entre umas cem espécies de “amigos-comuns”, nasce uma que é poesia. O segredo é ter paciência e sabedoria para selecionar a espécie certa entre as outras. Ela apresenta algumas características inconfundíveis, contudo, sutis e se você não for sensível, poderá ignorá-la entre as demais.
Pense numa figueira. Uma figueira selvagem... suas raízes são enormes, espessas e seguem abrindo sulcos de terra metros além de metros à distância. Ficam expostas sobre o chão chegando a quase um metro de altura. Nos dias de outono, de fortes ventos e sol brilhante, você poderá se abrigar entre as raízes da figueira e se proteger do vento e ali se aquecer e tirar um gostoso cochilo na companhia do sol. Elas servirão de muralha para protegê-lo. E naqueles dias de verão, de sol fortíssimo? Os galhos de uma figueira se estendem além de metros à distância e suas folhas verdes e fartas lhe proporcionarão sombra fresquinha. E se tiver fome, a figueira o alimentará. Os figos selvagens são saborosos: muito, muito doces! Uma figueira sobrevive por séculos, para além da vida humana, por gerações e ela nunca cessa de crescer! Segue expandindo seus galhos verdejantes e suas raízes profundas, sobrevive a tempestades, ao sol forte. Ela perde suas folhas no inverno e renasce a cada primavera e ainda que seja cortada, brotará, pois nada poderá vencer as suas raízes! Amigos-poesia são como as figueiras: abrigo quando se tem frio; refresco quando se está com calor; alimento quando se tem fome. O tempo, ao seu lado, passa despercebido, pois ainda que se faça muito ou nada, será agradável sua companhia e sua amizade viverá enquanto for a vida, com toda a solidez que pode ter os sentimentos mais verdadeiros.
Pense num bom vinho. A vinha foi plantada e o produtor cuidou com todo zelo necessário para que produzisse bons frutos. A uva é colhida e a bebida é preparada artesanalmente, depois é guardada e se espera anos e anos para degustá-la, pois o tempo fortalece e acentua seu sabor. Bebidas requintadas não são abertas a qualquer hora e nem partilhadas com qualquer estranho... Um bom vinho preencherá taças elegantes e será erguido para brindar à felicidade de quem se quer bem. A boa bebida se guarda para as boas companhias e será partilhada como se partilha o som musical dos risos que celebram o prazer de estar com quem se gosta, o prazer de ouvir boas histórias, ou mesmo o prazer do silêncio que é a plenitude das palavras, muitas vezes... amigos-poesia são como bons vinhos: o tempo os torna melhores; são caros, no sentido de que não estão por aí disponíveis em qualquer lugar. É preciso cuidar para que cresçam. É preciso cuidar em todos os momentos e eles estarão conosco nas horas mais preciosas.
Pense numa jóia verdadeira. Pense no processo de retirada da pedra da mina; no transporte cuidadoso para não danificar... a pedra foi lapidada e ganhou um belo formato e a peça é única, ou quem sabe, dela terão poucos exemplares. Talvez ela lhe custe meses de trabalho, mas você a quer e então, planeja, pensa... uma vez adquirida a jóia preciosa: ficou linda, perfeita! E por sua natureza rara e bela você cuidará, protegerá, vigiará, terá sempre por perto e colocará toda a sua atenção a fim de prover as condições adequadas para que ela exista com você, impecável e ela, em troca de seu cuidado e proteção, simplesmente, será bela, singelamente bela... e você sentirá beleza também: a beleza que ela contém. Amigos-poesia são como jóias preciosas: a boniteza de sua amizade nos contagia; sua força nos faz mais fortes e isto devido ao fato de que, quem tem um amigo-poesia sabe que nunca estará só, pois amigos-poesia são singelamente, belamente amigos, irmãos, “camaradas”... eles brigam por nós e ao nosso lado, por nossas causas; brigam conosco quando sabem que podemos ser melhores do que estamos sendo; muitas vezes são nossos olhos, nossos ouvidos; riem e choram ao nosso lado e seu ombro está sempre ali ao nosso alcance. Amigos são amores que nunca morrem... assim, mais ou menos, pensou Mário Quintana... e eu também penso.
Quanto a mim, estou pintando a obra da minha vida, estou construindo meu mural de coleções. No meu mural tem figueiras; tem vinhos; tem jóias preciosas. Ah, meu mural não é muito grande e nem muito diversificado, eu sei: não tem grande quantidade de exemplares... isto talvez faça com que algum sujeito desavisado ou que tenha escassez de espírito e que por acaso o contemple pense em relação a ele e a mim: “Pobre ser de vida pequenina”... Mas saibam que não me preocupo com isso: faz parte da caminhada do viver não dar importância ao que não a tem. Importa o que eu sei: meu mural não tem cópias; não tem plágio; não tem tinta de má qualidade que vá escorrer na primeira chuva... as peças que o formam são todas originais, caríssimas e não é o primeiro vento que as tirará do lugar...
Meus amigos são meus amores mais fraternos; são as asas que me levam mais adiante até alturas que, muitas vezes, penso não ser capaz de alcançar; são meu olhar aguçado para as pequenas e as grandes coisas; são o vento que me move do lugar onde estou; são a sombra e o calor; são o alimento que fortalece minha vontade de explorar outros cantos do mundo para colecionar novas coisas... Meus amigos são... assim, bem assim... deixe-me ver... decisivos! Esta é a palavra certa! Decisivos! Assim: o que uma onda significa para o peixinho que precisa regressar ao mar; o que é uma gota d’água para o arco-íris que está prestes a se formar e dominar o céu; o que é um raio de sol para o casulo que se abrirá após a metamorfose; o que é a chuva para a flor que irá desabrochar agora; o que é uma brincadeira de roda: ela não se preocupa com o ponto onde começa e nem onde termina, apenas sabe que sua função é rodar e pôr tudo em movimento com alegria... Meus amigos são assim, o que é a poesia para a palavra que necessita de forma para tornar possível o pensamento humano...
Meus amigos são a poesia que ganhou carne e ossos e, sobretudo, coração...

A vocês, meus amigos, obrigada por fazerem parte do mural da minha vida!

Metamorfoses


Rosane Porto




Numa manhã de sábado, chuvosa, um pequeno Sol irradiava meu coração, ou melhor, “minha pequena Sol”, (uma menininha de fios de cabelos dourados, de apenas seis aninhos) que, após eu contar uma história em cujo final uma lagarta se transforma em borboleta... questionou-me: “Mas, Professora, como a borboleta faz para virar lagarta de novo?” Ah, o lugar de Educadora não é dos mais fáceis... pensei numa explicação para a pergunta e disse que não é possível uma borboleta ser lagarta novamente do mesmo modo que não é possível um adulto voltar a ser criança – digo, criança na sua forma literal de ser – então, ela “pensou com Sophia” (quero dizer, com “sabedoria”, que é o significado do seu lindo nome) e completou, com expressão curiosa e inconformada: “E se ela se arrepender de ser borboleta e quiser ser lagarta outra vez?!”

O fato é que a pergunta revirou o fundo da minha alma! Voltei a pensar sobre as escolhas que fazemos e também sobre as renúncias. Pensei no quanto a vida é grandiosa e intrigante... de fato, se você se arrepender agora de ser adulto e quiser voltar a ser criança, não poderá! A metamorfose se fez e não tem volta! Você pode se arrepender agora de ter pensado que o príncipe encantado havia chegado aos seus dezoito anos; ou pode se arrepender de ter pensado que encontrara uma princesa aos trinta e mesmo assim, desapontar-se, dando-se conta de que não é ainda aquela que esperava. Você pode se arrepender... do namoro, do noivado, do casamento, da profissão; do lugar que escolheu para morar; do corte de cabelo que fez; da atitude que deixou de ter a tempo para ser mais feliz... você pode se arrepender e renunciar e fazer uma outra escolha porque sempre há uma outra estrada quando se trata da vida. Ela nunca é uma via de mão única. No entanto, tem as metamorfoses! Mesmo que eu mude a estrada, aquilo do que me arrependi, constituiu-me porque o que vivemos nos atravessa e se torna nossa carne. Poderia eu renunciar à profissão de Educadora hoje e escolher me tornar jornalista amanhã? Sim, bastaria uma nova graduação. Mas poderia eu, sendo jornalista, depois de ter vivido a experiência de ser Educadora, passar diante de uma escola sem me sensibilizar com o som das vozes infantis? No meu caso, especificamente, não. Rapidamente, meu cérebro seria acionado e os sentimentos de Educadora que teriam me constituído, que seriam a carne da jornalista também, voltariam, fossem por alegrias, por frustrações ou por lembranças saudosas... ainda que uma borboleta voltasse a ser lagarta seria uma lagarta sabedora da aventura de voar, da sensação de ter asas... no corpo da lagarta habitaria a experiência de ser borboleta e ela não seria mais uma lagarta igual a tantos outros milhões de lagartas...

É uma verdade que nunca é possível voltar a ser o que se era após ter sido algo diferente: borboletas poderiam até voltar à forma de lagartas, mas não sem o pensamento de borboletas, isto porque a vida – tanto a vida da borboleta, quanto a nossa - não passa, ela nos passa, atravessa, nos modela; e é benevolente, uma vez que, quase sempre, nos dá a chance de renunciar, de escolher outras coisas. Hoje compreendo que as metamorfoses existem para cumprir o fiel propósito da vida que é dar a cada um o direito de viver a experiência da felicidade: que a função do arrependimento é a chance da renúncia e da nova escolha, assim como a escuridão da noite é o fundo necessário à obra do céu estrelado...



               Especialmente, obrigada, Sophia! Por provocar em mim a metamorfose.






O Equilibrista

Rosane Porto


Era apenas um fio de barbante...

Um fio, do jeito que pode ser:



Fino como são as coisas que parecem frágeis,

longo como a espera por algo que se quer muito ver acontecer ou chegar,

solitário como o vento em noite sem luar,

resistente como a onda do mar que abraça, insistentemente, a praia...



Era, apenas uma bola...

Uma bola, do jeito que pode ser:



Esférica como são os grandes amores...



 E um elefante...

Um elefante????

Sim! Um elefante do jeito que pode ser:

Forte e grande como o vazio esculpido pela saudade...



E a bola se apoiava no fio e o fio sustentava a bola...

Mas...

Quem suportava o elefante?

Quem?

Era apenas um homem...

Um homem, do jeito que pode ser um homem capaz de suportar um elefante:

Um equilibrista...



Feliz...

como bolha de sabão viajando pelo ar,

como folha dançando no vento em manhã de primavera...



Triste...

como não acreditar em fadas,

como dia cinzento,

como balanço sem criança...



Sim! Um equilibrista do jeito que tem que ser:

frágil como o fio,

forte como o elefante,

incrível como ele mesmo!




Dedicado ao Marlon, que deu vida às minhas palavras, grande inspiração que fez este texto nascer...


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Ofício de Jardineiro






Rosane Porto






O que está no início, o jardim ou o jardineiro?... Havendo um jardineiro, cedo ou tarde, um jardim aparecerá. Mas um jardim sem jardineiro, cedo ou tarde, desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim sem o pensamento do jardineiro?[...] (Rubem Alves).
        Trabalho árduo é o do jardineiro. Primeiro ele prepara a terra: ela precisa ser fértil e macia para receber a frágil vida que lhe será depositada. Com os canteiros prontos, o jardineiro escolhe as sementes, porém, antes de lançá-las, é necessário planejar o jardim: que formato terá; como se harmonizarão as flores; as cores; as espécies; de quanto espaço as flores precisarão para crescer livres... Que jardim, afinal, quer este jardineiro? Ele joga as sementes com fé e, na sua imaginação, as vê florescendo e encantando a todos os olhos que por ali passarão...
Bem, o jardineiro sabe que entre semear e florescer existe o tempo de crescer... tempo este que lhe exigirá contínua atenção: é preciso regar, vigiar, defender a plantinha frágil dos males que poderão destruí-la. É preciso ainda adubar a terra no momento certo e na quantidade adequada... o ofício de jardineiro requer equilíbrio constante. Até que o jardim floresça o tempo pode ser longo. O jardineiro precisa ser paciente e atento às necessidades de seu jardim: conhecer cada plantinha e saber o que pode fazer de melhor por ela dia após dia.
De tudo isso, compreendo que o ofício de jardineiro não consiste apenas em semear, regar e esperar. Sabemos que nem sempre o solo é o mais fértil, que às vezes a semente que o jardineiro quer cultivar, mesmo com muito amor e fé, já chega maltratada às suas mãos. É verdade que cultivar e fazer crescer sementes não é tarefa fácil! Quantas vezes o jardineiro é surpreendido pelo clima impróprio? Mas uma coisa é certa: o que mata um jardim, normalmente, não são as intempéries externas. O jardim morre primeiro no coração do jardineiro...
De tudo isso, compreendo ainda que o contrário também vale: o jardim vive primeiro no coração do jardineiro! Semear, regar, proteger, cuidar fielmente sem perder a fé ao longo do tempo até que veja desabrochar a primeira flor!
       E ainda, de tudo, compreendo algo mais: educar pessoas é como plantar sementes...



Eu Aprendi

Rosane Porto


Aprendi que a vida não é um morango, mas que amanhã sempre poderá ser o primeiro dia do resto dela e que eu tenho que vivê-la prestando atenção nas flores que nascem pela beira do caminho: elas podem não ser os girassóis que idealizei, no entanto, as margaridinhas, são o melhor que a natureza pôde produzir na escassa terra que eu nem sempre reguei, por isso, as contemplo com a mesma paixão que contemplaria os girassóis...

Aprendi que os espinhos são indissociáveis das rosas e me ferem de vez em quando por que, de vez em quando, esqueço-me que a flor está ali. Assim, aceitei que a dor é nada mais do que o despertador que o universo usa para nos colocar em movimento...

Aprendi que se eu não aprender a controlar o meu medo, ele me controlará... ele poderá me roubar a chance de ser feliz agora porque o presente é a única dádiva da qual eu tenho a certeza de estar desfrutando...

Aprendi que não posso ser tão intolerante comigo mesma a ponto de não me perdoar por não estar sendo o suficiente para alguma situação ou momento, assim, aceitei que a minha medida é o tudo que eu posso ser: o máximo que eu puder ser de mim mesma. Isto basta.

Aprendi que importa o que eu quero e que isso deve me mover porque a vida só me dá o que eu for capaz de buscar, assim, entendi que preciso considerar o valor daquilo que me disponho a conquistar e não a dificuldade da caminhada...

Aprendi que muitas coisas não são como me contaram: que anjos não são perfeitos, assim como algodão doce não é feito de nuvem...

Aprendi que toda a vez que pensamos que não podemos ir mais longe do que já chegamos ou suportamos, a estrada sinuosa da vida nos ensina que podemos mais do que supomos e que a essência de viver é – singelamente - aprender...



O que é a Poesia?

         Rosane Porto


O que é a poesia


Se não palavras...

Esvoaçantes, leves, de asas muito longas?

Palavras que ganharam os céus

Depois de terem perdido o medo do alto, da nuvem,

Depois de terem experimentado o sabor açucarado da liberdade...



Uma poesia...

Pode ser esquisita, sim.

Às vezes, ganha forma estranha: de bicho, de gente

E passeia pela sala, em sua azulidade,

De olhos melancólicos,

De onde escapam os riachos de saudade.



Uma poesia...

É coisa mágica e ninguém sabe de onde nasce.

De bicho, vira vento e voa, voa, invisível...

E em sua invisibilidade, tem cheiro de primavera.

E sendo primavera desabrocha, intensa

E sendo intensa, é viva, e faz girar os cata-ventos dos meninos...



Uma poesia...

É coisa que se transforma e ninguém sabe em quê.

Também pode ser menino, e sendo menino, inventa uma história

E quanto mais a inventa, mais verdadeira ela se torna

Porque o que é a poesia se não

A casa da imaginação.



Uma poesia...

É o balanço que embala os sonhos...

E quando eles chegam no alto, velozes, saltam!

E do alto, viram verdade, para sonhar de novo

Até o próximo horizonte onde o sol se põe e a luz da ternura se acende

Para guiar os barcos que carregam os pensamentos.



Uma poesia...

São pensamentos, mas só aqueles perfumados:

De lua, de entardecer, de amanhecer, de risos, de flores, de fadas...

Pensamentos-poesia com os quais a gente presenteia

Só os amigos mais especiais que se ganha na vida.

E tem os amigos-poesia: aqueles que enxergam poesia na gente.

Porque na verdade, mesmo que não saibam, a poesia está neles...